Sede do SEBRAE nacional
[projeto]
Brasília, 2008
Autores: Thiago de Andrade, Filipe Berutti Monte Serrat e Virginia Manfrinato
Colaboradora: Imira Holanda
Imagens: Thiago de Andrade
Memorial
De posse do generoso lote e seu posicionamento privilegiado no plano piloto de Brasília, decidimo-nos por dois gestos afirmativos da espacialidade brasiliense, o primeiro posicionar o principal edifício do conjunto na parte posterior do lote, criando um interstício propício a ocupação coletiva entre a rua, seus acessos e as funções administrativas. Não o chamaremos aqui de praça, pois tal não é sua função, que é bem conhecida ao longo da história da arquitetura e do urbanismo, e que, em Brasília, ganha contornos sutis e de difícil nomenclatura e determinação, pois nessa cidade tudo é e deve ser considerado como paisagem, pois o vazio existe em todas as escalas propostas. Ou seja, há sempre que se considerar, no espaço construído, a relação com a paisagem, com os horizontes vários, com os pontos cardeais e com a perfeita relação entre chão-topografia e o teto-celestial. Disso resulta o segundo gesto afirmativo: tratar o interstício como Estar Cultural, um espaço de trânsito e permanência de uma coletividade em permanente formação e interação: a característica do SEBRAE mais louvada por nós. Portanto, trabalha-se a necessária topografia a fim de acomodar todo o programa, facilitar acessos e principalmente a sutil busca de uma proporção entre as partes que seja simples e variada, funcional e bela. Valemo-nos, então, da horizontalidade quase imposta e do vazio frontal, que ensejará a percepção invariável de conjunto em certos pontos. A partir Estar Cultural se descortinam níveis, escadas e rampas e desse encaminhamento inicial, seja de carro ou a pé, o sujeito reconstituirá a imagem de toda a proposta a partir da experiência, dos caminhos e da fruição que deverá ser sempre participativa e autônoma.
Ou seja, o projeto é uma busca, um risco, para representar no espaço arquitetônico
a importância do SEBRAE para a sociedade brasileira, como representante da excelência
no trabalho formativo e informativo de um público específico a partir do empreendedorismo. Portanto, o partido arquitetônico adota uma simples gradação entre as áreas coletivas e privativas, estando as primeiras localizadas no nível térreo (-3,60m abaixo da cota de soleira) e as últimas nos dois pavimentos funcionais e administrativos, que abrigam o programa em pavimento corrido. No térreo, em função do extenso trabalho
com o programa, com a organização e otimização de funções afins, com o leiaute dos pavimentos, propõe-se a criação do referido Estar Cultural, pela presença marcadamente
formal do auditório, biblioteca, salão multiuso e uma nova função criada: o espaço cultural, que poderá ser usado para sala de exposições e pequeno cinema na área de pé-direito duplo.
O sistema construtivo utilizado busca a simplicidade no sistema mais praticado atualmente na cidade: estrutura em concreto armado, moldado in loco, com pilares de seção “H” (com espaço para descida de tubos advindos das águas pluviais), lajes nervuradas em colméia utilizando-se por exemplo módulos de formas de 60x60cm da indústria ATEX. A partir disso desenvolvem-se todos os pavimentos com pequenos trechos de lajes maciças convencionais a fim de enrijecer o conjunto. O auditório será
executado em concreto armado utilizando cimento branco e será o único elemento de
maior complexidade estrutural. De resto, as vedações serão em esquadria de alumínio
anodizado branco e vidro incolor, sempre protegidos por brises metálicos de pintura eletrostática branca; divisórias para escritórios modulares e alvenaria de bloco concreto
celular e/ou bloco de gesso, e em alguns casos de gesso acartonado.
Baseamo-nos no módulo de 60cm, 1,20m, 2,40m, e assim sucessivamente, o que permite extensa racionalização dos elementos utilizados, tanto forros, vedações etc, bem como conjuga espaços funcionais de forma eficiente, por exemplo, vagas de garagem de 2,40 x 4,80; ambientes de trabalho e estações que se encaixam nos vãos estruturais de 9,60x9,60m. Nas elevações essa modulação também é bem-vinda, caracterizando vão entre-pisos de 3,60m, laje nervurada de 30cm, entre-forro de 50cm, piso elevado de 24cm, resultando num pé-direito final de 2,56m.
Conquanto a estrutura seja simples e de baixo teor de inovação em função da restrição de custos, o apelo tecnológico mais contemporâneo é reservado às soluções ambientais e de reciclagem e reuso dos elementos essenciais. As duas águas da cobertura apresentam várias funções, tanto estéticas quanto ambientais: criam um colchão de ar necessário para a contenção do calor advindo da alta insolação nas coberturas de Brasília; captam águas pluviais em toda a extensão do edifício administrativo; criam uma iluminação zenital ao longo de todo o último pavimento e ainda recebem painéis fotovoltaicos na “água” posterior.
Criou-se uma enorme cisterna enterrada na parte anterior do lote, buscando a cota mais alta possível, a fim de armazenar a água captada pela cobertura e ainda utilizar de métodos passivos de distribuição por gravidade. O lixo e os resíduos sólidos também foram considerados, sendo acrescentada ao programa uma sala de triagem do lixo para reciclagem. O espelho d’água, além da função paisagística e de composição da fachada por seus reflexos e alongamentos visuais, servirá também como ladrão, escoadouro,
das águas pluviais excedentes, além de contribuir para o arrefecimento do sistema de ar-condicionado. Embora indispensável, este foi pensado para ser utilizado com a maior eficiência e mais baixo uso possível, por isso criam-se proteções nas fachadas, ora cegas, ora com brises rendilhados em telas metálicas de desenho específico, sendo que essas proteções sempre distam 1,20m das esquadrias dos pavimentos. Nas fachadas sudoeste e sudeste há passarelas de manutenção que serão executadas em piso industrial metálico vazado, funcionando ainda como brise horizontal. O conforto acústico é garantido pelas esquadrias industriais de alto poder de isolamento, forros acústicos, pisos com baixa emissão de ruídos.
As instalações foram pensadas a concentrar os sanitários comuns e os especiais para PNEs, copas e almoxarifado de limpeza e área de serviço, dois shafts de instalações e salas de racks de redes e cabeamento estruturado. Existem duas unidades em todos os três pavimentos. O recolhimento das águas pluviais dá-se por nichos específicos nos pilares em forma de “H” e as instalações elétricas e de rede, bem como algumas
hidrossanitárias (em função dos banheiros e copas específicas do programa de diretores) correm sob o piso elevado. Este sistema, conjuntamente com os acessos de manutenção
das fachadas, garante a facilidade na manutenção e a flexibilidade garantida pelos tamanhos dos vãos, distâncias e módulos racionais.
As “torres” de circulação e equipamentos fixos dedicam-se às circulações privativas das autoridades e presidentes na fachada sudeste e aos serviços na fachada sudoeste. A circulação central, que tem acesso pelo hall de entrada e encontra-se mais centralizada em relação às duas alas do edifício, é a circulação principal para todos os demais funcionários. As escadas para fugas não necessitam de antecâmaras enclausuradas pela natureza do edifício e da proposta apresentada, portanto, elas se destacam na fachada em balanço, e são vedadas por vidro temperado incolor e com tratamento com película para baixa transmissão de calor. Essas “torres” recebem dois chanfros que conjugam a abertura e iluminação natural para os banheiros coletivos.











