Entrevista feita por e-mail. 1. O que torna a cidade de Brasília especial para você? Por favor, citar os locais que na sua opinião valorizam a cidade. No que tange ao Plano Piloto, onde vivo, a grande contribuição de Brasília é a Superquadra. Ela é o que há de mais especial para o morador em seu cotidiano. Uma pena que esteja restrita a uma parcela muito pequena da população e esteja se tornando cada vez mais excludente dado o alto custo da habitação nessas áreas. Além da Superquadra, é claro que os monumentos de Brasília qualificam a cidade, e, na minha opinião, o edifício mais importante e belo da cidade é a rodoviária do Plano Piloto. Projeto raro de Lucio Costa na cidade, ela resolve e articula o centro físico e simbólico de Brasília sem limites definidos entre o viário, o edifício funcional, e o simples tecido urbano que se desdobra em níveis com grande clareza de intenções. É de sua plataforma superior que se compreende a esplanada dos ministérios, em toda a sua monumentalidade, e a sua continuação para o oeste, com a belissima vista da torre de TV, também projeto de Lucio Costa. Lembro-me, quando criança, que me impressionava a descida pelas escadas rolantes mirando o terminal rodoviário de cima, com seu pé-direito duplo e aquela visão panoâmica que apresentava um certo senso de realidade, de quantidade. É dali que se irradiam os pequenos lampejos de vida coletiva e movimentada que aludem a um centro de cidade tradicional. É, conjuntamente com o Setor Comercial Sul, o único lugar da cidade com caráter de centralidade. Infelizmente, é esquecida por grande parte da população do Plano Piloto, altamente elitizada que não transita por ali. 2. Em quais aspectos Brasília surpreende o "turista" que imagina encontrar apenas as sedes oficiais do poder na cidade? Em outras palavras, qual é o lado B de Brasília? Brasília surpreende os turistas especialmente pelo ordenamento do espaço urbano, pela amplidão da paisagem e a permanência dos horizontes, além do já cantado e poetizado céu. Quando eles têm acesso aos habitantes da cidade costumam também se impressionar com a possibilidade de se morar em um parque, mas também com o "cosmopolitismo brasileiro" que há aqui. É na cidade que o Brasil converge e preconceitos regionais são relativizados. Entretanto, impressionam-se também negativamente pela ausência de pessoas nas ruas de modo generalizado, pela dependência do carro, pela distância relativa das coisas e sobretudo pela excessiva setorização da cidade. Agora, os lados B de Brasíla, podem ser vários: o circuito gastronômico da cidade que cresceu absurdamente, o circuito cultural da cidade que atrai grandes exposições vindas de fora, embora a produção artística local, bem como a popular, estejam carecendo de incentivos e divulgação. E, sem dúvida, para além dos parques da cidade e do Lago Paranoá, a natureza do entorno é rica em beleza geológica e águas, além da fauna e flora do cerrado. Este é um momento de forte descoberta das potencialidades do cerrado e de valorização das riquezas culturais e naturais da região. 3. Quais são os principais temas que a população de Brasília está discutindo para ter uma vida melhor na cidade? Sem dúvida são os problemas de transporte público, o alto custo habitacional e de expansão da mancha urbana. Temas como a regularização de condomínios, criação de novos bairros e novos meios de transportes motivados pela Copa do Mundo de 2014 não saem do noticiário. Se equipararmos o Distrito Federal a um município ele já é o 4º do país com cerca de 2.600.000 habitantes. A minha preocupação é que se continuarmos no atual ritmo de crescimento (o maior do país em termos metropolitanos) chegaremos a terceira região metropolitana do país em 10 anos. E isso é realmente preocupante. Não podemos repetir São Paulo 40 anos depois, conhecendo todos os resultados de uma expansão urbana desenfreada! Mas a solução não estará centrada na cidade, mas sim no resgate do planejamento de todo o território, tanto do entorno imediato quanto das regiões do país. Algo que abandonamos de modo gradual após o golpe militar em 1964. Tínhamos uma tradição de construção de novas cidades, e esse conceito, abandonado por teorias administrativas, políticas e urbanísticas, terá que ser revisto e resgatado. Add Comment Há tempos acompanho o site do fotógrafo português Fernando Guerra. Ele já havia postado umas fotos desse projeto ainda em obras. Sempre em visita com o próprio Alvaro Siza. Finalmente ficou pronto ou, pelo ensaio do fotógrafo, quase. Siza, perto dos 80 anos, está fiscalizando a obra e aparece fazendo croquis de prováveis revisões no detalhamento e construção. Incrível a vitalidade e o amadurecimento sem fim do mestre. Os espaços têm naturezas sempre singulares, lavados pela luz natural e com a única mácula do chão de madeira, que faz a espacialidade ter matéria, vínculo com a realidade cotidiana. Os pisos de madeira estão ali só para que o usuário não se perca no etéreo, sinta seu cheiro e reconheça algo de familiar, porque nada mais é familiar nesse edifício. Lembro-me do Siza responder ao ser questionado sobre sua parceria com Frank Gehry no projeto de um campus nos EUA. Ele, Gehry, um arquiteto tão diferente e aparentemente incoerente com a prática de Siza. Foi algo mais ou menos assim:"Ora, o que eu gosto é de trabalhar com gente inteligente, não importa sua arquitetura, sempre haverá diálogo." E não posso deixar de lembrar do Frank Gehry nesses espaços, embora totalmente diferentes, sem cópia ou mimese, sem referência, mas fiquei tocado com a complexidade elementar que ele busca em arroubos no teto. É claro que isso existe em todo o percurso do Siza, mas quão louvável é um arquiteto em permanente transformação mesmo depois de consagrado, maduro, com 80 anos? Também não posso deixar de ler esse projeto sem relacioná-lo com o Museu Iberê Camargo, e duas obras esportivas mais recentes, em que as curvas, nunca exibidas nem gratuitas, mediam a relação do espaço interno com o externo. Chorei! Publicação Espontânea 03/06/2009
Há coisas que só o mundo da Internet e o Google fazem por você. Acabei de descobrir uma publicação espontânea de um blog de arquitetura e decoração em inglês - de onde serão? americanos? - que nos achou e resolveu publicar um projeto que acabáramos de publicar aqui, o Mário Lúcio Negócios Imobiliários. Resposta a Oscar Niemeyer 01/22/2009
Meu brilhante colega Oscar Niemeyer Sobre o projeto da Praça da Soberania.*** | AutorThiago de Andrade é arquiteto pela FAU-UnB. Possui escritório próprio desde 2004 na cidade de Brasília. Arquivos
Setembro 2011 CategoriasAll |

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