Menu:

 
 Imagem
Livro - 50 anos de arquitetura - Brasília
Cocuruto publicado com fotos de Joana França e texto de Carlos Henrique Magalhães!

Curadora: Emília Stenzel
Editor: Jean Bergerot
com textos de Cláudio Queiroz

Publicação com um panorama da produção da arquitetura de Brasília com seleção de projetos da arquiteta, professora e crítica de arquitetura Emília Stenzel. Projeto Cocuruto - Residência de Campo publicado com texto de Carlos Henrique Magalhães.
Verbete sobre o edifício de Paulo Magalhães nas SQS 405 e 406 de autoria de Thiago de Andrade.

Editora Senac
iniciativa do CasaPark em parceria com a Editora Anual
 
 
Entrevista feita por e-mail.

1. O que torna a cidade de Brasília especial para você? Por favor, citar os locais que na sua opinião valorizam a cidade.
No que tange ao Plano Piloto, onde vivo, a grande contribuição de Brasília é a Superquadra. Ela é o que há de mais especial para o morador em seu cotidiano. Uma pena que esteja restrita a uma parcela muito pequena da população e esteja se tornando cada vez mais excludente dado o alto custo da habitação nessas áreas.
    Além da Superquadra, é claro que os monumentos de Brasília qualificam a cidade, e, na minha opinião, o edifício mais importante e belo da cidade é a rodoviária do Plano Piloto.
    Projeto raro de Lucio Costa na cidade, ela resolve e articula o centro físico e simbólico de Brasília sem limites definidos entre o viário, o edifício funcional, e o simples tecido urbano que se desdobra em níveis com grande clareza de intenções. É de sua plataforma superior que se compreende a esplanada dos ministérios, em toda a sua monumentalidade, e a sua continuação para o oeste, com a belissima vista da torre de TV, também projeto de Lucio Costa. Lembro-me, quando criança, que me impressionava a descida pelas escadas rolantes mirando o terminal rodoviário de cima, com seu pé-direito duplo e aquela visão panoâmica que apresentava um certo senso de realidade, de quantidade.
    É dali que se irradiam os pequenos lampejos de vida coletiva e movimentada que aludem a um centro de cidade tradicional. É, conjuntamente com o Setor Comercial Sul, o único lugar da cidade com caráter de centralidade.
   Infelizmente, é esquecida por grande parte da população do Plano Piloto, altamente elitizada que não transita por ali.

2. Em quais aspectos Brasília surpreende o "turista" que imagina encontrar apenas as sedes oficiais do poder na cidade? Em outras palavras, qual é o lado B de Brasília?
Brasília surpreende os turistas especialmente pelo ordenamento do espaço urbano, pela amplidão da paisagem e a permanência dos horizontes, além do já cantado e poetizado céu. Quando eles têm acesso aos habitantes da cidade costumam também se impressionar com a possibilidade de se morar em um parque, mas também com o "cosmopolitismo brasileiro" que há aqui. É na cidade que o Brasil converge e preconceitos regionais são relativizados.
   Entretanto, impressionam-se também negativamente pela ausência de pessoas nas ruas de modo generalizado, pela dependência do carro, pela distância relativa das coisas e sobretudo pela excessiva setorização da cidade.
   Agora, os lados B de Brasíla, podem ser vários: o circuito gastronômico da cidade que cresceu absurdamente, o circuito cultural da cidade que atrai grandes exposições vindas de fora, embora a produção artística local, bem como a popular, estejam carecendo de incentivos e divulgação. E, sem dúvida, para além dos parques da cidade e do Lago Paranoá, a natureza do entorno é rica em beleza geológica e águas, além da fauna e flora do cerrado. Este é um momento de forte descoberta das potencialidades do cerrado e de valorização das riquezas culturais e naturais da região.

3. Quais são os principais temas que a população de Brasília está discutindo para ter uma vida melhor na cidade?
Sem dúvida são os problemas de transporte público, o alto custo habitacional e de expansão da mancha urbana. Temas como a regularização de condomínios, criação de novos bairros e novos meios de transportes motivados pela Copa do Mundo de 2014 não saem do noticiário.
    Se equipararmos o Distrito Federal a um município ele já é o 4º do país com cerca de 2.600.000 habitantes. A minha preocupação é que se continuarmos no atual ritmo de crescimento (o maior do país em termos metropolitanos) chegaremos a terceira região metropolitana do país em 10 anos. E isso é realmente preocupante. Não podemos repetir São Paulo 40 anos depois, conhecendo todos os resultados de uma expansão urbana desenfreada!
    Mas a solução não estará centrada na cidade, mas sim no resgate do planejamento de todo o território, tanto do entorno imediato quanto das regiões do país. Algo que abandonamos de modo gradual após o golpe militar em 1964. Tínhamos uma tradição de construção de novas cidades, e esse conceito, abandonado por teorias administrativas, políticas e urbanísticas, terá que ser revisto e resgatado.